A Síndrome de Asperger faz parte dos transtornos do espectro do Autismo, ainda que as suas características sejam diferentes. Usualmente tem um início mais tardio do que o transtorno Autista, ou pelo menos é identificado mais tarde. Atrasos motores, ou falta de destreza motora, são notados já no período pré-escolar mas são muitas vezes negligenciados.
Embora possam relacionar-se de modo perfeitamente normal dentro da família, as dificuldades na interacção social tornam-se visíveis no contexto escolar. São crianças que não se relacionam com os colegas e que tendem a não ser sociáveis. É, também, durante este período, que começam a ser evidentes determinados interesses idiossincráticos (por exemplo, fascínio pelos horários dos autocarros, por matriculas, comboios, etc...).
Mas o que diferencia a síndrome de Asperger do autismo propriamente dito, é o facto dos seus portadores não apresentarem problemas no desenvolvimento da linguagem e menos probabilidades de terem dificuldades de aprendizagem.
Aliás, na maior parte das vezes, o quociente intelectual é médio ou acima da média. A leitura é usualmente boa e as habilidades de cálculo também, ainda que na motricidade fina possam apresentar dificuldades.
Outra área fraca é a concentração, uma vez que se encontram muitas vezes mergulhados no seu complexo mundo interior e distanciam-se da realidade que os cerca.
O isolamento
Ainda que os jovens com este distúrbio possam diferir muito uns dos outros, todos partilham o mesmo tipo de questões de base ou seja, dificuldades no relacionamento social, problemas de comunicação e de flexibilidade mental.
Ao contrário do que se passa com os restantes autistas, as dificuldades de relacionamento não se prendem com a linguagem, mas sim com a capacidade de empatia.
Em regra centram as conversas nos seus temas favoritos (por exemplo os comboios), repetindo-os de forma excessiva e sem se aperceberem que estão a ser aborrecidos. Têm também dificuldades em compreender brincadeiras, trocadilhos, jogos de palavras ou em interpretar piadas com duplo sentido ou metáforas.
Possuem um sentido de humor muito peculiar a que os outros dificilmente têm acesso. Devido a isso, muitas vezes são encarados como pedantes e usam gírias e de forma completamente desadequada.
Facilmente entram em situações de conflito ou luta de forças com colegas, porque tendem a interpretar à letra o que lhes é dito. Reagem, então, de forma dramática e inapropriada.
Podem desencadear autênticas explosões de agressividade, em que batem indiscriminadamente nos outros, ou apresentam movimentos repetitivos (bater com as mães na carteira, oscilações corporais, etc).
A deficiente flexibilidade mental manifesta-se na resistência à mudança e permanente insistência na manutenção do mesmo ambiente e das rotinas. Aliás, as mudanças tendem a destabilizá-los.
Como diagnosticar ?
Caso suspeitem de uma patologia deste tipo, a primeira coisa que os pais têm a fazer é procurar um especialista, de modo a obterem um diagnóstico preciso. Quando tudo estiver clarificado será bastante mais fácil lidar com a situação.
Não se sabem concretamente as causas que conduzem ao transtorno de Asperger, ainda que tudo aponte para que se trate de algo neurológico. Muitas vezes há um parente próximo (usualmente o pai) que tem um quadro completo de Asperger, outras vezes o parente tem um distúrbio uni ou bipolar.
O transtorno de Asperger não é diagnosticado se são satisfeitos os critérios que apontem para a Esquizofrenia. No entanto, quando comparado com o esquizofrénico, o jovem Asperger assume comportamentos e interesses mais estereotipados e interacção social mais gravemente comprometida.
O que fazer ?
Muitas vezes é necessário informar os professores do que se passa, de forma a terem em conta que esta desordem provoca o surgimento de algumas atitudes e comportamentos diferentes dos demais estudantes.
Em casa deve ser estimulado o alargamento do leque de interesses e fomentado o relacionamento social com o grupo de pares. Por exemplo, apesar de o jovem se ir mostrar muito relutante, é importante inscrevê-lo num ginásio onde pratique uma modalidade desportiva em grupo (futebol, andebol, etc).
Paralelamente, embora não existam dificuldades de aprendizagem, podem estar presentes dificuldades fonéticas, pelo que não é de colocar de lado uma intervenção nesta área.
Para além disso, o seu interesse idiossincrático por uma área específica do conhecimento, pode levá-lo a recusar aprender tudo o que não se enquadre nessa área específica, levando a problemas escolares.
Que futuro?
O apoio psicológico surgirá como forma de trabalhar aspectos ligados às competências sociais, com vista a optimizá-las. No entanto, apesar de todas as barreiras há que ter em conta que, felizmente, cada vez mais se toleram as diferenças.
Se o adolescente tiver um bom percurso académico, isso pode conferir-lhe o respeito dos colegas. Pode até vir a formar amizades com outros estudantes que partilhem os seus interesses (por exemplo através da Internet).
Com alguma sorte e uma intervenção atempada, muitos destes jovens desenvolvem habilidades sociais necessárias e suficientes para se encaixarem na sociedade.
Este transtorno aparentemente segue um curso contínuo e, na ampla maioria dos casos, a duração é vitalícia e tendencialmente haverá uma evolução progressiva no quadro.
No entanto, os adultos Asperger podem não ter uma vida muito convencional, já que tenderão sempre a fugir ao banal, mas nem por isso serão completamente desadaptados. Encontram o seu lugar em profissões mais criativas, ou então nas áreas científicas intimamente ligadas à investigação.
Por: Drª Teresa Paula Marques Psicóloga Clínica, especialista em Psicologia Infantil e do Adolescente