
É inegável que o passado deixa marcas em todos nós. No bom sentido, são as lembranças felizes, os momentos luminosos e alegres da nossa infância, memórias de um lugar deixado para trás, no tempo em que se acredita que os problemas têm finais felizes. Uma música especial, o reflexo de sol na fenda de uma gruta, o cheiro das algas, a sensação da areia fresca sob os nossos pés, o amanhecer, os raios da lua branca no céu e o cantar dos grilos, as histórias contadas em sussurros quando a luz se apaga, como quem tece um longo bordado, são lembranças felizes que ficam imprimidas suavemente na pele e no centro do nosso ser. Na idade adulta, é a estes momentos que voltamos quando as coisas correm mal e o nosso universo se desmorona. Neles encontramos a paz que nos ajuda a recompor das crises e das rupturas. Mas com as crianças não é assim que as coisas se passam.No caso do divórcio dos pais, considerado pelos especialistas como um dos traumas mais difíceis de ultrapassar, ainda não têm maturidade para o fazer. Demasiado preocupadas e assustadas, não sabem - e não podem - socorrer-se desses bons momentos e dessas referências seguras vividas numa família que até aí era um todo e que de repente se desfaz. O seu mundo fica subitamente dividido ao meio, e elas estão perdidas, sentindo que o chão lhes foge debaixo dos pés. Nesta fase crucial de um processo em que a família está prestes a separar-se, muitas vezes as crianças não encontram um espaço em que possam exprimir o que sentem. O luto dos pais
Dramaticamente vivido por uns ou aparentemente «aceite» por outros, o divórcio é sempre um trauma que não só abala profundamente a integridade das pessoas que o vivem como deixa marcas que perduram no tempo até que a vida retome um ritmo mais tranquilo e os corações se apaziguam. Mas até aqui chegar são percorridas várias etapas. Uma ruptura amorosa leva tempo a instalar-se, desenvolver e a consumar-se. Na verdade, quando o divórcio se aproxima e se revela como inevitável, os adultos começam a fazer o seu luto muito antes das crianças, que embora possam já sentir confusamente que alguma coisa não está bem, não conseguem ainda imaginar o que se prepara.É aqui que, desde logo, começa o princípio do caos emocional. Os adultos tendem a fechar-se demasiado sobre as suas mágoas e frustrações, deixando os filhos entregues aos seus medos e inseguranças, remetidos a um silêncio que a médio e a longo prazo se revela tóxico pelos estragos que causa. Muitas vezes não é por egoísmo que os pais se alheiam do que os rodeia, mas por causa da dor e da inquietação sentidas e que lhes toma muito do seu espaço «interior». Não se sentem disponíveis para atender as necessidades reais que as crianças atravessam nesse momento. Mas o problema é que o impacto do divórcio dos pais na vida de uma criança é enorme, e se o seu sofrimento não for convenientemente atendido e compreendido, se não for validada a sua dor, as marcas deixadas podem ser devastadoras e reflectirem-se na sua vida futura.
Três regras de ouroÉ certo que cada filho reage ao divórcio dos pais de maneira diferente, segundo as características pessoais que são determinantes no processo. A forma como encaram o trauma varia com o grau de fragilidade, de vulnerabilidade e sensibilidade de cada um, segundo a sua estrutura e história específica que, fatalmente, os condicionam. No entanto, mais introvertidos e inseguros, ou mais extrovertidos e confiantes, todos ficam extremamente fragilizados com a ruptura. Fazê-los falar sobre o que sentem e, sobretudo, validar o seu sofrimento, é indispensável. Especialistas no assunto recomendam três regras essenciais na forma de lidar com o processo de divórcio, numa tentativa de minimizar as suas consequências. Em primeiro lugar, os pais devem combinar previamente e em conjunto os detalhes da conversa que irão ter com os filhos. Outra das regras sugere que o anúncio do divórcio seja feito a dois, pelo pai e pela mãe, da maneira mais tranquila possível.Finalmente, e na opinião de Gary Neuman, terapeuta especialista em divórcios, é fundamental fazer passar a mensagem crucial nos primeiros «quarenta e cinco minutos» após o anúncio do divórcio. Este é um momento-chave para suavizar da melhor forma possível os efeitos do impacto, quando o pânico ainda não se instalou. Se este momento não for devidamente «agarrado», tudo será pior, diz. Assim, é fundamental dar-lhes a conhecer o passo que vai ser dado quando as crianças sentem que a família é ainda «um todo». Esse sentido de unidade fá-las reagir melhor. «Quando ainda somos uma família, e ainda há unidade e consistência entre os laços que unem pais e filhos, quando as coisas ainda não explodiram, é a altura essencial para se começar a falar da separação que está para vir.» Sentir que a família ainda é um «bloco» e que não se desagregou efectivamente é a melhor maneira «de os por à vontade, ou pelo menos, de evitar que entrem em pânico, de forma a poderem fazer as perguntas que desejam, para se acalmarem e começarem a acostumar a uma realidade que ainda não aconteceu».A calma e a tranquilidade fortalecem as crianças. É então tempo de fazer perguntas, de lhes assegurar que os pais continuarão a estar «ao lado» deles, a apoiá-los, a responder a todas as perguntas as vezes que forem necessárias. Falar com relativa simplicidade e tranquilidade do que se passa, das razões que os impedem de continuar a viver juntos, fazendo-lhes sentir e compreender que eles, filhos, nada têm de responsabilidade no caso. Nesta fase, é essencial que o sofrimento dos filhos «ganhe protagonismo» no processo. É desse sofrimento que se trata de apaziguar, e os pais devem deixar de parte o seu luto individual e pensar primeiro nas crianças.
Culpa dos filhos, raiva dos paisUma das mais terríveis consequências é a culpa que os filhos carregam em relação ao divórcio dos pais, de que se sentem responsáveis. Mais uma vez, desculpabilizá-los com empatia e amor, retira-lhes um enorme peso dos ombros, que muitas vezes carregam anos a fio. Quando não encontram eco para as suas dúvidas e medos, tendem a culpar-se, pensando que foram os causadores da separação. Na realidade, esse medo é difuso, não identificam exactamente a razão dessa culpa, atribuindo-a eventualmente aos maus resultados escolares, aos maus comportamentos ou a alguma falta do seu passado de que não tiveram a consciência. Mas, ainda que não verbalizem ou entendam o peso da culpa pesada que os habita, há toda uma dinâmica de dor que se agita dentro deles.Muito do sofrimento faz-se no silêncio das suas cabeças que não param de pensar e de sentir, e o mais grave é que os adultos não se apercebem nem valorizam estes medos calados porque se encontram, eles próprios, a braços com a sua própria dor. Estilhaçados pelo sofrimento, pela raiva e ressentimento, os pais não têm tempo para pensar no que os filhos possam estar a sentir. Por outro lado, nada é mais violento para uma criança do que ouvir os pais culparem-se mutuamente pelo que aconteceu. Quando a guerra estala entre os adultos, as crianças sentem o coração a bater desordenadamente dentro deles, como uma bomba prestes a explodir. No entanto, embora seja muitas vezes difícil para os adultos evitar denegrir o ex-companheiro ou companheira, há que preservar acima de tudo a imagem do outro.Quando, por exemplo, a mãe está dolorosamente magoada com o ex-marido, a criança é que paga. Nestas alturas de crise, muitas crianças começam a fazer chichi na cama, choram, tornam-se birrentos, teimosos, irritáveis, e os pais não fazem a ponte entre este comportamento e o processo que está a decorrer, tendendo a culpar os filhos e descarregando em cima deles a sua própria raiva e frustração. As crianças pequenas precisam de mais ajuda, de verbalizarem o que sentem, mas geralmente isso não acontece. Pelo contrário, muitas vezes, é nestas alturas que os pais se tornam mais exigentes e desesperados com o comportamento dos filhos, castigando--os, culpando-os, irritando-se e perdendo a paciência, quando é justamente dessa mesma paciência que eles agora mais precisam. Não se trata, porém, de culpabilizar os pais. Não somos perfeitos e esta é uma das crises mais difíceis de viver.
Agora pode ser tardeA esmagadora maioria dos divórcios ocorre quando as crianças têm entre sete a dez anos, períodos particularmente sensíveis nas suas vidas. Mais uma vez não é demais alertar para o perigo que representa esse tempo de luta e de mágoa, em que as crianças são muitas vezes «esquecidas». Imersos na sua própria dor, os pais acham que por serem ainda pequenos, os seus filhos «não percebem bem as coisas», e por isso não vale a pena aprofundar muito o assunto. Pensam que se refazem com facilidade, que esquecem, se habituam e adaptam às novas vidas, sem fazerem a mínima ideia do que realmente se passa nas suas cabeças e nos seus corações.Quando mais tarde «acordam» para os filhos, depois de se instalar uma certa calma e tranquilidade e de muitas vezes refazerem as suas vidas, tudo parece cicatrizado e esquecido. Sendo o divórcio «tão comum» e tão grande o número de crianças, filhas de pais divorciados, que sobreviveram «tão bem» aos novos casamentos dos pais, ao nascimento de novos irmãos de ambos os lados, não se apercebem da gravidade da situação que entretanto evoluiu perigosamente. De repente, as crianças cresceram e chegaram à adolescência. É neste momento que os sintomas mais graves se revelam. Sem se darem conta do sucedido, os pais encontram nos seus adolescentes aparentemente «refeitos» do divórcio, jovens interiormente minados de problemas não resolvidos. Porquê? Porque se «refizeram» à sua custa, tendo sido deixados entregues a si próprios, muitas vezes despedaçados entre pais que se digladiam e desprezam, tendo em consequência crescido psiquicamente descompensados e em desequilíbrio.Perdidos na sua escuridão pessoal, fizeram todo o processo sozinhos, viveram a sua tristeza como um longo caminho solitário, sem ninguém com quem pudessem falar do que sentiam. Os adultos não tiveram tempo para os acarinhar, acalmar, sossegar. Acumularam mágoas, o que muitas vezes traz as mais terríveis consequências, que se revelam das mais variadas formas, por vezes da maneira mais dramática. Especialistas relatam problemas em adolescentes como auto-mutilações, comportamentos de risco, desespero, depressão e violência, muitas vezes para punir os pais, outras para se punirem a si próprios. Estas situações representam, justamente, novos momentos-chave para restabelecer a ponte que se quebrou.Recontar o passado
Apesar dos traumas e dos desesperos vividos na infância e na adolescência, como o divórcio dos nossos pais, que subitamente dividiu ao meio o mundo da infância, as histórias tristes podem sempre ser recontadas de forma a poder reconstruir a estrutura perdida. Dito de outro modo, nunca é tarde para remediar os estragos de uma relação depois de um divórcio mal vivido. A melhor solução está, mais uma vez, na partilha, em falar do que aconteceu no passado. Essa nova abordagem, o facto de poder acrescentar novos dados à história permite uma aproximação entre as pessoas.Sim, a aproximação é sempre possível, por maiores que sejam as mágoas, nada é para sempre. «Até à hora da morte é possível repor a verdade das coisas e voltar a contar a história, por vezes muitos anos depois, quando os ânimos se acalmaram e as vozes deixaram de gritar o medo que sentimos, a insegurança de ter perdido um porto onde ancorar», diz Gary Neuman. É possível apaziguar os medos, os ressentimentos e sobretudo compensar o estilhaçar súbito das nossas vidas. É possível voltar atrás e contar a história de novo, ouvir novas versões do pai e da mãe, que contam a sua própria história e que deitam, enfim, luz sobre o que realmente se passou, o que foi sentido, decidido, em que ponto a coisa se partiu para sempre. É possível, até ao fim, dizer de sua justiça, explicar, contar como cada um dos elementos da família percorreu o seu próprio caminho até ao dia em que se rompe o silêncio.Às vezes, não se conta tudo de uma vez, a história vai sendo revelada aos poucos, à medida que as perguntas se colocam e se juntam as peças do puzzlle. Apesar de os silêncios terem criados mágoas que fermentaram dolorosamente dentro de nós, é sempre tempo de tentar curar as feridas antigas.
Fonte: Pais&Filhos
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