
| Imaginem um concerto dos Rolling Stones no Pavilhão Atlântico. Mick Jagger e seus pares seriam os heróis, objecto das entrevistas e personagens das histórias. Os cartazes trariam a fotografia do grupo. A televisão filmaria o solista e os instrumentistas. E, após o concerto, os meios de comunicação falariam sobretudo da performance dos músicos. Mick Jagger talvez agradecesse no final aos técnicos que tinham «tornado possível» aquele concerto, e os media diriam que o som e as luzes «estavam impecáveis».
Se, por absurdo, quem protagonizasse os cartazes e o espaço comunicacional fossem os técnicos de som e de luz algo estaria mal. E, no entanto, eles são indispensáveis para que tudo corra bem – uma falha de um deles acaba com o espectáculo.
Do mesmo modo, o nascimento é um momento dos pais e da criança. É um espaço íntimo e privado, de êxtase e contemplação. Um espaço em que se pode vislumbrar a eternidade. Os técnicos, por mais e melhores que sejam, não passam de técnicos, cuja missão, objectivo e acção tem por alvo, unicamente, os protagonistas do «concerto». Para que se sintam o melhor possível, para que este momento único seja sublime e possam vivê-lo e fruí-lo em plenitude.
Querer apropriar-se do nascimento, reduzindo-o a um «parto», é demasiadamente redutor, inapropriado e «indecente». Quantas vezes o bebé é levado, com o pretexto de «ter de ser aquecido» (debaixo de luzes intensas e brancas, quando a natureza faz, da pele dos braços e do peito da mãe, uma verdadeira fonte de calor, resguardada pela penumbra e pelo toque de pele com pele), ou de terem de ser feitas manobras que podem ser feitas daí a dez ou quinze minutos porque não têm qualquer sequência imediata (exceptua-se a minoria de casos em que o teste de Apgar revela que a criança precisa de cuidados de urgência ou de vigilância)? Em quantos casos o bebé é mostrado aos pais e depois levado pelos profissionais que revivem, certamente, a sua fantasia de ter filhos e pensam que, por momentos, aquele bebé acabado de nascer é mais um filho seu? Para os médicos e enfermeiros pode ser reconfortante, em termos de fantasia, mas para os pais, e factualmente, é um autêntico «assalto à mão armada».
DEVE O PAI ASSISTIR AO PARTO?
NÃO! O pai não assiste ao parto. Para já, é colocá-lo no registo de algo que é desagradável, inestético e agressivo. Depois, porque «assistir» significa «ter bilhete e ir para a bancada». O pai está presente no nascimento. E está presente porque não seria concebível este nascimento sem ele. Assim, creio que devemos defender com muito maior veemência do que até aqui tem sido feito, a presença do pai no parto do seu filho, que é também o da mãe e o seu próprio, como um direito inalienável, que só deve ser negado face a condições e razões reais, lógicas e inultrapassáveis. Quando resulta da vontade expressa dos dois, não pode ser negada – a não ser em casos excepcionais – a presença do pai num momento sublime, transcendente e único da vida da família.
NASCER, MAMAR, SER AQUECIDO E ENCONTRAR O ABRAÇO DO PAI
O recém-nascido, como têm repetidamente demonstrado Brazelton e tantos outros pediatras do desenvolvimento e neonatologistas, necessita de ser abraçado pela sua mãe e pelo seu pai (seus autores) logo a seguir ao nascimento – caso, bem entendido, razões clínicas não justifiquem outra atitude –, e necessita mamar para repôr a glicemia e aumentar os níveis de ocitocina da mãe (com melhor saída de leite, bem-estar, analgesia e contracção uterina). O momento imediatamente a seguir ao nascer é um momento crítico e histórico, de uma profundidade inigualável. Negar aos pais e ao bebé esta oportunidade, por meras «rotinas de serviço» que não são individualizadas e expressam uma concepção obsoleta do que são «serviços», será sinónimo de prática inadequada.
As cesarianas com epidural
O nosso país tem coisas completamente toscas e ridículas. E às quais o Ministério da Saúde fecha os olhos, como se não tivesse nada a ver com o caso, ou como se a autonomia administrativa e financeira dos hospitais permitisse a vilanagem. Enquanto em alguns serviços é prática o pai estar presente aquando de uma cesariana com epidural, noutros o acesso é interdito «porque houve um dia um caso de um pai que desmaiou» – desmaiou, porventura, porque lhe ofereceram ver um parto em vez de um nascimento. Se fosse assim, teríamos que ter a certeza de que o obstetra não desmaia ou não tem um enfarte, pois as consequências, aí, seriam mesmo muito graves. O doutor A autoriza, mas o doutor B proíbe. Esta situação de falta de critério objectivo e científico, de prepotência e arrogância, e de chantagem subliminar («falas muito, arriscas-te a que a tua mulher e o teu filho possam a sofrer com isso») é inadmissível, e os leitores que de alguma forma colaboram com ela são igualmente responsáveis.
A realização de uma cesariana com epidural, em que a mãe está lúcida e acordada, e em que o acto médico está claramente separado da intimidade familiar, não me parece ser impedimento para a presença do pai na sala de partos – não passará pela cabeça de ninguém que pai vá «espreitar por cima do pano verde» ou dar opiniões e «palpites» sobre o acto médico. Nem os profissionais se sentirão influenciados, nas suas decisões e na sua prática, pela presença de pessoas «para lá» do seu campo de trabalho. Aliás, face a qualquer problema repentino, com certeza que o pai aceitaria sair da sala, caso surgisse a necessidade. Acresce que não existe qualquer perigo infeccioso inerente à presença de outra pessoa, dado que esta se desinfectará e protegerá como, por exemplo, qualquer aluno de Medicina que presencia um acto cirúrgico. |
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| Texto: Mário Cordeiro, professor de Pediatria | |
| 11 Maio 2009 |
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