11 de fevereiro de 2010

Filhos e o divórcio


Em caso de divórcio, proteja emocionalmente o seu filho
O que fazer quando o desentendimento e a ruptura abalam o núcleo familiar?
O divórcio ou a separação conjugal é um acontecimento de vida que acarreta inúmeras mudanças, perdas e problemas para resolver.
Desencadeada a decisão de ruptura no casal, o núcleo familiar é abalado por acontecimentos que têm réplicas em diversas outras áreas, como a família alargada, os amigos, o trabalho, e, acima de tudo, os filhos.
A magnitude emocional da separação não é medível pela Escala de Ritcher mas na Escala de Eventos Causadores de Stress de Herbert Benson e Miriam Z. Klipper (adaptado de “Relaxation Response”) o divórcio é apontado como estando no topo da lista, pelo seu forte impacto.
Deste modo, o que fazer para ultrapassar este momento crítico em que o projecto do casamento cai por terra?
Neste artigo vamos focar a nossa atenção nas estratégias que poderão ser tomadas em conformidade com o Artigo 8.º da Declaração dos Direitos da Criança: “Todas as crianças têm direito de ser socorridas em primeiro lugar em caso de acidentes ou catástrofes”.
A prevenção secundária com os pais como socorristas principais poderá prevenir situações negativas futuras em termos traumáticos. Por isso, se está a passar por uma situação de separação ou de divórcio, aqui ficam algumas dicas para a protecção emocional dos seus filhos:
1. Na separação, separe a conjugalidade da parentalidade
Esta é uma das tarefas mais difíceis. Dentro da relação os papéis misturam-se e nem sempre é clara a fronteira de cada um. Contudo, o fim do casamento é o final da conjugalidade e não da parentalidade. Tente separar e diferenciar, quer na sua mente, quer no concreto.

2. Pais para sempre
No seguimento da dica anterior, transmita aos seus filhos que ser mãe e ser pai é para sempre, isto é, que não há a possibilidade de separação como no casamento. Diga ao seu filho que irá ter sempre a mãe e o pai do seu lado, e que estes o amam profundamente.

3. Explique o que se passa
Conte-lhe o que se está a passar. Ele faz parte da família e está directamente envolvido na situação. Mesmo sendo criança ou adolescente tem o direito de saber o que se passa. Por vezes esconder para supostamente proteger não é uma boa estratégia pois não prepara a criança para a fase de mudança. Diga-lhe simplesmente que a mãe e o pai se desentenderam e que não gostam mais um do outro. Diga-lhes que isso acontece por vezes e dê exemplos positivos de outras crianças que viveram a mesma situação. Repita as vezes que forem necessárias a dica 2: que os pais separaram-se um do outro mas que não se vão separar nunca dele. Ele vai precisar de ouvir isso muitas vezes.

4. Não explique tudo
Há assuntos que são apenas dos adultos e de igual modo um filho não é o melhor amigo para se contar tudo. Explique apenas o necessário e proteja os seus filhos de certas informações.

5. Não culpe o outro à frente do seu filho
Esta parte também poderá ser bem difícil. A separação envolve frequentemente sentimentos de zanga, de desilusão e de rejeição. Mesmo que sinta imensa vontade de culpar o outro e tenha inúmeras razões para o fazer, não o faça à frente do seu filho.

6. Não se culpe à frente do seu filho
Frequentemente o fim de uma relação traz consigo o sentimento de fracasso, e no íntimo haverá alguns resíduos de auto-culpabilização. Não só não se culpe à frente do seu filho como igualmente permita-se ir-se desculpando.

7. A culpa não é dos filhos
Muitas vezes as crianças no espaço do consultório revelam sentir culpa pelo que aconteceu. Para além do mais acham-se ser mais um problema que os pais têm que resolver numa altura de desentendimento. Procure dizer ao seu filho que ele não tem culpa nenhuma do que está a acontecer e repita a dica 2.

8. Todas as crianças têm direito a um pai e a uma mãe
Não prive o seu filho do pai ou da mãe. Naturalmente terá as suas razões para sentir desilusão e amargura face ao outro, mas procure não misturar emocionalmente as coisas. Para uma criança é importante a oportunidade de crescer com a mãe e com o pai. A separação do casal não tem de significar que a criança se separe de um dos progenitores. Pelo contrário. Tanto a mãe como o pai têm a responsabilidade parental de fazer os filhos sentirem que estarão presentes nas suas vidas da melhor forma que conseguirem, mesmo que a gestão do tempo seja diferente e que não seja fácil para os adultos ultrapassarem esta fase de desentendimento.

9. Rotinas
Procure reorganizar as suas rotinas e as rotinas do seu filho. Mesmo sendo um período de muitas mudanças, gradualmente será relevante voltar-se a uma nova rotina que seja securizante para todos e em especial para as crianças.

10. Discussão
Por vezes é difícil evitá-las mas pelo menos não as tenha em frente do seu filho. Há crianças que ficam extremamente tristes nesta fase do divórcio porque os pais estão sempre, sempre a discutir, e elas sentem-se preocupadas com eles.

11. Amizade versus Funcionalidade
Não tem que ser amigo ou amiga do seu ex. O que será importante é existir uma funcionalidade na comunicação e na reorganização das rotinas.

12. Canais de comunicação e Intermediários
Experimente diversos canais de comunicação entre ambos: pessoalmente, por telefone, por sms, por mail, ou por outro meio. Mas tente comunicar, mesmo que não seja fácil. Se possível, escolha um intermediário da sua família, da família do seu ex ou outra figura (escola, médico, psicólogo), que tenha uma posição mais diplomata e mais isenta, para poder ser uma ponte de comunicação.

13. Duas percepções da mesma realidade
Os filhos de pais separados rapidamente descobrem que frequentemente existem duas percepções diferentes da mesma realidade, a da mão e a do pai, e que não existe necessariamente uma que seja a verdadeira e outra que seja a falsa. Na sua diplomacia e tentativa apaziguadora, os filhos procuram muitas vezes validar ambas as percepções, não tomando posições.
O que eles querem dizer é que gostam da mãe e do pai e que não querem ter que escolher um deles, em detrimento do outro.
Com o tempo, muitas vezes acaba por existir uma terceira percepção: a dos filhos.

14. Aproveite os momentos
Desfrute os momentos em que está com os seus filhos e igualmente aqueles em que estes não estão consigo. Viva tranquilamente e com satisfação os momentos simples ou os especiais, pois a vida é isso mesmo: momentos.

15. Procure apoio
Como foi referido no início deste artigo, a separação ou divórcio são fases geradoras de imenso stress.
É naturalíssimo que sinta diversas vezes variadas emoções negativas e que por vezes não saiba bem o que fazer. Estar fora do problema é sempre bem diferente de estar dentro dele.
Nesses momentos procure ajuda. Existem diversos profissionais com respostas adequadas e que a ajudarão a si ou ao seu filho.

16. Novos Projectos
Depois da tempestade vem a bonança. Por isso, recorde-se que esta fase também significa novos projectos e novas descobertas.

Especialistas do Portal dobebe.com
Dr. Hugo Santos

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