Quando, por vezes, temos que suspender a nossa vida...
Há 8 anos perdi o meu Pai, fiquei sem chão, não foi fácil de ultrapassar, tinha casado há poucos meses, tinha a cabeça cheia de projectos e o coração de sonhos. Consegui seguir em frente, tomei como exemplo o Pai lutador que tive e segui com a minha vida, apesar da dor.
Passados alguns meses estava grávida do Miguel e a vida passou a ter mais sentido novamente. Ele nasceu e encheu de amor a nossa casa e a nossa vida.
Desde criança mas, principalmente, desde a perda do meu Pai, os meus pilares foram os meus avós que, apesar de terem pedido um filho, o único filho, conseguiram dar-me força. Ainda consigo sentir o abraço do meu avô quando lhe demos a notícia, não imagino a dor que sentiu mas, ainda assim, aquele abraço foi para me confortar, guardou a dor dele para tratar da minha.
O Miguel foi para os bisavós uma nova luz, um novo motivo para sorrir, para brincar, para nos seus quase 80 anos virem da Guarda a Lisboa com muita regularidade. E o meu coração ficava tão quentinho.
Quis a vida que passados 2 anos o avô Zé adoecesse. E foi aí que a minha vida ficou em suspenso.
Quatro longos meses passados entre hospitais, médicos e exames, um mês hospitalizado. O olhar, ainda hoje consigo ver aquele olhar de quem estava preso no seu corpo e sem voz.
O meu avô, o exemplo de garra e tranquilidade, estava preso a uma cama, sofria em silêncio, chorava sozinho.
Não houve dia em que não conversasse com ele, nos últimos dias ficava em silêncio...o que dizer? Estava a ser cada vez mais difícil de esconder a tristeza, a angústia de o estar a perder.
Eu tive dois pais e estava prestes a ficar sem os dois.
E assim foi...
A minha avó, incapacitada de viver sozinha, carregava duas das mais incapacitantes doenças, uma física, outra mental.
Partindo o meu avô, ficava ela. De olhar vazio...
Quatro anos se passaram e a condição da minha avó foi-se degradando cada vez mais. Mais uma vez estive lá, médicos, internamentos, situações terminais...um Natal e um ano Novo passados no hospital.
Um dia estava consciente, no outro recuava a tempos em que éramos uma família maior...senti-me tão incapaz. Só puder estar ao lado dela, alimenta-la, fazer-lhe companhia não era suficiente. Queria e precisava fazer mais...não podia perder mais uma das minhas pessoas. A avó que tanto me dava raspanetes como conselhos, mas que me conhecia tão bem, que me mimava à sua maneira. Pensar que não voltaria a criticar a minha roupa descontraída em dia de festa da terra, pensar que não voltaria a comer o seu caril ou as suas filhós...Não, não podia ser!
Partiu em paz e assim acabou o seu tormento de viver com a dor de quem perdeu o filho e o companheiro de toda a vida.
Quero acreditar que eles estão melhor. Convenci-me de que foi melhor assim do que continuarem a sofrer...
E eu?!
Onde estou eu?!
Como vou ficar com esta dor, as minhas três pessoas...
Foram tempos difíceis, aceitar, aprender a viver com a dor, querer pegar no telefone para contar uma novidade e não ter um número para onde ligar... decidi viver a vida de forma a que eles, lá onde estiverem, se orgulhem de mim, seguindo os seus exemplos de vida, voltei à luta. Lutei pela minha vida, aquela que tinha colocado em suspenso...
E consegui recuperá-la, construí uma família linda, que amo com todas as minhas forças.
A dor está cá, mas saber que fiz tudo o que podia para lhes dar o conforto e amor que precisavam ajudou a conseguir voltar a viver.
E já não tenho a minha vida em suspenso...
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