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5 de agosto de 2017

Quando a minha vida esteve em suspenso

Quando, por vezes, temos que suspender a nossa vida...

Há 8 anos perdi o meu Pai, fiquei sem chão, não foi fácil de ultrapassar, tinha casado há poucos meses, tinha a cabeça cheia de projectos e o coração de sonhos. Consegui seguir em frente, tomei como exemplo o Pai lutador que tive e segui com a minha vida, apesar da dor.

Passados alguns meses estava grávida do Miguel e a vida passou a ter mais sentido novamente. Ele nasceu e encheu de amor a nossa casa e a nossa vida.

Desde criança mas, principalmente, desde a perda do meu Pai, os meus pilares foram os meus avós que, apesar de terem pedido um filho, o único filho, conseguiram dar-me força. Ainda consigo sentir o abraço do meu avô quando lhe demos a notícia, não imagino a dor que sentiu mas, ainda assim, aquele abraço foi para me confortar, guardou a dor dele para tratar da minha.

O Miguel foi para os bisavós uma nova luz, um novo motivo para sorrir, para brincar, para nos seus quase 80 anos virem da Guarda a Lisboa com muita regularidade. E o meu coração ficava tão quentinho.

Quis a vida que passados 2 anos o avô Zé adoecesse. E foi aí que a minha vida ficou em suspenso.
Quatro longos meses passados entre hospitais, médicos e exames, um mês hospitalizado. O olhar, ainda hoje consigo ver aquele olhar de quem estava preso no seu corpo e sem voz.
O meu avô, o exemplo de garra e tranquilidade, estava preso a uma cama, sofria em silêncio, chorava sozinho.
Não houve dia em que não conversasse com ele, nos últimos dias ficava em silêncio...o que dizer? Estava a ser cada vez mais difícil de esconder a tristeza, a angústia de o estar a perder.

Eu tive dois pais e estava prestes a ficar sem os dois.
E assim foi...

A minha avó, incapacitada de viver sozinha, carregava duas das mais incapacitantes doenças, uma física, outra mental.
Partindo o meu avô, ficava ela. De olhar vazio...

Quatro anos se passaram e a condição da minha avó foi-se degradando cada vez mais. Mais uma vez estive lá, médicos, internamentos, situações terminais...um Natal e um ano Novo passados no hospital.
Um dia estava consciente, no outro recuava a tempos em que éramos uma família maior...senti-me tão incapaz. Só puder estar ao lado dela, alimenta-la, fazer-lhe companhia não era suficiente. Queria e precisava fazer mais...não podia perder mais uma das minhas pessoas. A avó que tanto me dava raspanetes como conselhos, mas que me conhecia tão bem, que me mimava à sua maneira. Pensar que não voltaria a criticar a minha roupa descontraída em dia de festa da terra, pensar que não voltaria a comer o seu caril ou as suas filhós...Não, não podia ser!

Partiu em paz e assim acabou o seu tormento de viver com a dor de quem perdeu o filho e o companheiro de toda a vida.

Quero acreditar que eles estão melhor. Convenci-me de que foi melhor assim do que continuarem a sofrer...

E eu?!
Onde estou eu?!
Como vou ficar com esta dor, as minhas três pessoas...

Foram tempos difíceis, aceitar, aprender a viver com a dor, querer pegar no telefone para contar uma novidade e não ter um número para onde ligar... decidi viver a vida de forma a que eles, lá onde estiverem, se orgulhem de mim, seguindo os seus exemplos de vida, voltei à luta. Lutei pela minha vida, aquela que tinha colocado em suspenso...

E consegui recuperá-la, construí uma família linda, que amo com todas as minhas forças.

A dor está cá, mas saber que fiz tudo o que podia para lhes dar o conforto e amor que precisavam ajudou a conseguir voltar a viver.

E já não tenho a minha vida em suspenso...

25 de maio de 2009

O luto...

Queridos amigos,

Os que me conhecem pessoalmente sabem que meu Pai faleceu recentemente e o quanto tenho sofrido com isso...
Estive a ler sobre o luto, o seu processo, como proceder e decidi publicar este artigo no meu blog para que saibam como ajudar quem vos estiver perto e a passar por uma situação de perda.

beijinhos

O Processo de Luto Normal
As perdas geram respostas emocionais específicas, cuja natureza abarca várias manifestações.

Manifestações afectivas
- Tristeza
- Solidão
- Culpa
- Raiva
- Ansiedade
- Apatia
- Choque
- Desespero
- Desamparo

Manifestações comportamentais
- Agitação
- Fadiga
- Choro
- Isolamento

Manifestações cognitivas
- Pensamentos de preocupação com a pessoa
- Sensação da presença da pessoa associada a alucinações visuais ou auditivas
- Baixa auto-estima
- Falta de memória
- Dificuldades de concentração

Manifestações fisiológicas
- Perda do apetite
- Insónia
- Queixas somáticas

As respostas emocionais mencionadas estão associadas ao trabalho de elaboração psicológica da perda, conhecido por Processo de luto. Este é um processo de adaptação à perda. É uma experiência profunda e dolorosa, que implica sofrimento, mas também a capacidade de encontrar alguma esperança, conforto e alternativas de vida significativas.
É importante referir que o período de dor e sofrimento correspondente ao luto por uma perda, é normal e deve ser encarado como saudável e necessário. É a sua ausência que merece mais atenção, pois isso pode indicar a presença de uma perturbação psicológica.

As respostas típicas de um processo de luto organizam-se em quatro fases:
- Fase de choque e negação: surge imediatamente após a perda e tem duração média de 1 a 14 dias. Habitualmente a pessoa não acredita no sucedido, sentindo-se perdida, só e apática. Estão presentes sintomas fisiológicos como a diminuição do apetite, insónias, náuseas e sensação geral de desconforto.
- Fase do desespero e expressão da dor: é notória cerca de duas semanas após a perda. A descrença em relação ao sucedido desaparece, cedendo lugar à consciência da morte ocorrida. Os sintomas depressivos acentuam-se, havendo a ausência de interesse pelas actividades vitais e a alteração dos padrões normais de comportamento. São frequentes os pensamentos e sonhos sobre a pessoa perdida. Sentimentos como a raiva e a culpabilização quer para si, quer para os profissionais de saúde. Habitualmente esta fase tem a duração de 6 a 8 meses.
- Fase de resolução e reorganização: caracteriza-se pela recuperação do interesse pela vida, pelo trabalho e pelas relações pessoais. O futuro deixa de aparecer com matrizes tão pessimistas, pois a perda começa a ser aceite, o que atenua os sintomas depressivos atrás evocados. A pessoa chora com menos frequência, os sentimentos de vazio e de tristeza são dissipados, assim como as recordações recorrentes da pessoa falecida. Esta fase pode durar semanas ou meses.

A recusa de certas pessoas em procurar apoio, deixando que os sintomas se agravem, pode levar à constituição de quadros clínicos de depressão e/ou a comportamentos aditivos como o consumo de bebidas alcoólicas e/ou medicação não prescrita, entre outros comportamentos de risco.

A recuperação de uma perda exige o activar de recursos pessoais e relacionais, que nem sempre estão disponíveis ou são os mais adequados ao trabalho de luto. O percurso psicológico que culmina na aceitação da perda e restituição do equilíbrio emocional, é muito extenso, complexo, requer tempo, mas também, muita coragem e resistência.

O Processo de Luto Patológico As formas não adaptativas de luto podem-se agrupar em quatro tipos:
- Luto crónico: persiste durante muito tempo e torna difícil o desempenho das tarefas de rotina que integram a vida normal.
- Luto atrasado: ocorre quando as respostas são inibidas, suprimidas, adiadas ou não resolvidas. - Luto exagerado: composto por respostas de intensidade excessiva.
- Luto mascarado: há presença de sintomas físicos e psicológicos que causam dificuldades ao indivíduo, mas que este não reconhece estarem ligados à perda sofrida.

Como prestar apoio?
Quando uma pessoa passa por uma situação de perda não há uma palavra certa que possamos identificar como a fundamental. No entanto, mais do que o que dizemos, é importante mostrar que estamos lá para ouvir, que sabemos ouvir, que estamos disponíveis.

Mas o que devemos fazer para saber ouvir?
- Não falar enquanto o outro fala;
- Evitar movimentos de distracção;
- Concentrar-se no que a outra pessoa está a dizer;
- Não interpretar o que é dito;
- Certificar-se daquilo que foi dito;
- Mostrar ao outro que se está atento.

Para se saber ouvir deve-se procurar escutar o que é dito com assertividade, para tal podemos recorrer às seguintes estratégias:
Audição com expressões verbais de simpatia:
- Uh,Uh….
- Sim…
- Concerteza…
- Continue…
- Ah sim…
- Utilizar expressões físicas de empatia
- Sorrir
- Acenar com a cabeça
- Jogo fisionómico de acompanhamento
- Olhar de frente sem fixação intensiva
- Ter uma postura semelhante à de quem fala

O que não se deve dizer:
Cada pessoa apresenta características muito individuais, se a algumas a quem apenas um sorriso ajuda, há outras que é necessário uma palavra amiga. Como já referido, não há frases feitas que se possa generalizar como o que se deve dizer.
Pelo contrário, há algumas frases que devemos evitar.
São elas:
- Foi melhor assim.
- Está na altura de esqueceres.
- Daqui a uns tempos já nem te recordas disto.
- Não te deixes ir abaixo, não foste a única que perdeu alguém.
- Agora tens um anjo para cuidar de ti.
Para além destas, há muitas outras frases a evitar.

Mostrar acima de tudo, que a pessoa não está sozinha, que tem alguém que a compreende e está disponível.

Por: Drª. Sandra Cunha - Psicóloga e Coordenadora do Projecto Artémis
Blog: Consultório de Perda Gestacional em
http://projectoartemis.blogs.sapo.pt/