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22 de outubro de 2018

[capítulo 1] 2 anos depois...

Há precisamente 2 anos, senti o pior sentimento que alguém pode sentir, um sentimento de impotência, de não conseguir fazer aquilo a que uma mulher está destinada, de não conseguir proteger o meu bebé.


Há 2 anos pensei que estivesse a perder o meu anjinho, felizmente foi apenas um alerta, um Pára! Acalma-te! Chega de correrias e protege o teu bebé!


Um descolamento da placenta levou-me a fazer repouso absoluto a partir das 12 semanas. Foram 7 longuíssimos meses de espera, de ansiedade, de auto controlo.


Hoje tenho o meu anjinho G nos braços. Com 17 meses veio acrescentar valor e propósito à minha vida, veio iluminar ainda mais os meus dias, veio alegrar o nosso lar.


Dois anos depois, olho para trás e voltaria a fazer tudo de novo, voltaria a passar horas intermináveis entre a cama e o sofá. Voltaria a ler em voz alta para que o meu G conhecesse a minha voz. Voltaria a dedicar-me quase em exclusivo ao meu anjinho.


Se soubesse o que sei hoje, teria abrandado o ritmo mal soube que estava grávida, teria redefinido imediatamente as minhas prioridades. Não o fiz e nada me convence de que a culpa do que aconteceu está mesmo aí.


Amigas gravidinhas e lindas, abrandem as vossas vidas, dediquem-se a relaxar, a desfrutar as barriguinhas. Aproveitem muito, são momentos únicos na nossa vida!


Tenho pena de não ter aproveitado mais esta segunda gravidez, o medo que me acompanhou até ao fim, a incerteza de como terminaria cada dia, não me permitiram desfrutar a minha barriga, o meu bebé.


Mas ele está cá, corre pela casa, ri à gargalhada, chama por mim a plenos pulmões, aninha-se no meu colo quando quer miminhos, dá beijinhos bons e abracinhos apertados… e tudo valeu a pena!

11 de julho de 2018

Como é possível?

Vivi trinta e qualquer coisa anos sem ti e agora, vejo-me sem ti durante algumas horas e não sei o que fazer, não sei onde ir... Caminho pela rua, faço algumas coisas mas ando incompleta...

Como é possível?!

Um ser tão pequenino ser uma peça fundamental da minha vida, ser aquela peça que veio comprar o puzzle.

Como é possível?!

A mamã já te vai buscar meu amor pequenino.

5 de agosto de 2017

Quando a minha vida esteve em suspenso

Quando, por vezes, temos que suspender a nossa vida...

Há 8 anos perdi o meu Pai, fiquei sem chão, não foi fácil de ultrapassar, tinha casado há poucos meses, tinha a cabeça cheia de projectos e o coração de sonhos. Consegui seguir em frente, tomei como exemplo o Pai lutador que tive e segui com a minha vida, apesar da dor.

Passados alguns meses estava grávida do Miguel e a vida passou a ter mais sentido novamente. Ele nasceu e encheu de amor a nossa casa e a nossa vida.

Desde criança mas, principalmente, desde a perda do meu Pai, os meus pilares foram os meus avós que, apesar de terem pedido um filho, o único filho, conseguiram dar-me força. Ainda consigo sentir o abraço do meu avô quando lhe demos a notícia, não imagino a dor que sentiu mas, ainda assim, aquele abraço foi para me confortar, guardou a dor dele para tratar da minha.

O Miguel foi para os bisavós uma nova luz, um novo motivo para sorrir, para brincar, para nos seus quase 80 anos virem da Guarda a Lisboa com muita regularidade. E o meu coração ficava tão quentinho.

Quis a vida que passados 2 anos o avô Zé adoecesse. E foi aí que a minha vida ficou em suspenso.
Quatro longos meses passados entre hospitais, médicos e exames, um mês hospitalizado. O olhar, ainda hoje consigo ver aquele olhar de quem estava preso no seu corpo e sem voz.
O meu avô, o exemplo de garra e tranquilidade, estava preso a uma cama, sofria em silêncio, chorava sozinho.
Não houve dia em que não conversasse com ele, nos últimos dias ficava em silêncio...o que dizer? Estava a ser cada vez mais difícil de esconder a tristeza, a angústia de o estar a perder.

Eu tive dois pais e estava prestes a ficar sem os dois.
E assim foi...

A minha avó, incapacitada de viver sozinha, carregava duas das mais incapacitantes doenças, uma física, outra mental.
Partindo o meu avô, ficava ela. De olhar vazio...

Quatro anos se passaram e a condição da minha avó foi-se degradando cada vez mais. Mais uma vez estive lá, médicos, internamentos, situações terminais...um Natal e um ano Novo passados no hospital.
Um dia estava consciente, no outro recuava a tempos em que éramos uma família maior...senti-me tão incapaz. Só puder estar ao lado dela, alimenta-la, fazer-lhe companhia não era suficiente. Queria e precisava fazer mais...não podia perder mais uma das minhas pessoas. A avó que tanto me dava raspanetes como conselhos, mas que me conhecia tão bem, que me mimava à sua maneira. Pensar que não voltaria a criticar a minha roupa descontraída em dia de festa da terra, pensar que não voltaria a comer o seu caril ou as suas filhós...Não, não podia ser!

Partiu em paz e assim acabou o seu tormento de viver com a dor de quem perdeu o filho e o companheiro de toda a vida.

Quero acreditar que eles estão melhor. Convenci-me de que foi melhor assim do que continuarem a sofrer...

E eu?!
Onde estou eu?!
Como vou ficar com esta dor, as minhas três pessoas...

Foram tempos difíceis, aceitar, aprender a viver com a dor, querer pegar no telefone para contar uma novidade e não ter um número para onde ligar... decidi viver a vida de forma a que eles, lá onde estiverem, se orgulhem de mim, seguindo os seus exemplos de vida, voltei à luta. Lutei pela minha vida, aquela que tinha colocado em suspenso...

E consegui recuperá-la, construí uma família linda, que amo com todas as minhas forças.

A dor está cá, mas saber que fiz tudo o que podia para lhes dar o conforto e amor que precisavam ajudou a conseguir voltar a viver.

E já não tenho a minha vida em suspenso...

4 de abril de 2017

Uma gravidez diferente do esperado

Foram alguns anos a planear, foi muito pensada e muito desejada.

Desta vez queria que fosse diferente, queria aproveitar mais, desfrutar mais, fazer as coisas que não fiz na primeira, mais sessões fotográficas, mais passeios, mais tempo a desfrutar a barriga, os pontapés, abrandar o ritmo frenético para viver em pleno esta que, talvez, seja a minha última gravidez.

Gosto de planear, de saber o que vou estar a fazer daqui a 1 dia, 1 mês, 1 ano...

E, afinal, tudo foi diferente, nada do que planeei se concretizou dessa forma.

Soube que estava grávida quando num dia agitado de trabalho senti dores no baixo ventre que quase me impossibilitavam de andar, estava apenas de 4 semanas... a partir daqui tudo foi diferente da primeira e do que esperava.

Às 12 semanas uma perda abundante de sangue levou-me às urgências, um descolamento da placenta que me obrigou a repouso absoluto durante algumas semanas.

O descolamento foi melhorando e eu ganhei a confiança de que, dali em diante, tudo melhoraria.

Não foi bem assim, apareceram valores  alterados no útero que podiam impedir o normal crescimento do bebé e risco de pré-eclampsia... repouso até ao final.

Meses difíceis, de muita angústia, dúvidas, incertezas...inicialmente não conseguia sentir que o meu bebé ficasse bem, que nascesse bem.

Aos poucos fui ficando mais confiante e foi na eco às 33 semanas que ouvi, pela primeira vez, ele está óptimo e a crescer muito bem...Não consegui conter as lágrimas, tentei engoli-las, foi o culminar de tantos meses difíceis, de tantas lágrimas...desta vez eram lágrimas boas!

Hoje sei que o meu G é um Guerreiro e que batalha a batalha vamos conseguir sair vitoriosos desta luta.

É indescritível... e tudo valeu a pena!

Não posso escrever sobre esta gravidez sem falar do B, que tem sido marido, Pai, dono de casa, cozinheiro, motorista... sempre de uma forma exemplar e nunca me deixando cair. Obrigada por seres assim e cuidares tão bem de nós!

2 de abril de 2017

O avô foi ajudar o Jesus

Aos 6 anos já o M tinha assistido à perda de dois bisavós.
Tinha apenas 2 anos quando o avô Zé partiu.
Acompanhou a sua doença, diariamente, em nossa casa, pois o companheiro de brincadeiras estava então mais sossegado, já não podia sentar-se no chão a montar legos ou correr atrás da bola.

Muitas foram as vezes em que perguntou porquê e fomos dizendo que o avô estava doente e não podia. As brincadeiras enérgicas deram, então, lugar a leituras de histórias e muitos mimos.

No mês em que o avô esteve hospitalizado, muitas foram as vezes em que, em vez de ficar a brincar no parque infantil do IPO, enquanto um de nós fazia companhia ao avô, pedia para também o ver...não mais o viu, aquele não era sítio para um menino tão pequeno e, muito menos, queríamos que guardasse aquela imagem do avô que tanto adorava.

O dia de nos despedirmos do avô chegou e, à pergunta diária 'o avô Zé já está bom?' não podemos esconder.
Explicámos-lhe que o avô tinha ido para perto do Jesus - aquele Jesus que vê tudo o que fazemos e gosta dos meninos que se portam bem.
As perguntas começaram e, algumas, mantém-se até hoje.
'Porque o avô teve que ir para o Jesus?' - porque o Jesus tem tantos meninos para tomar conta que precisa de ajuda e, como o avô Zé é muito bom o Jesus escolheu-o para ser o seu ajudante.
'Mas eu também preciso do avô'... 'Quando é que ele volta?'... - Quando uma pessoa vai para o céu já não pode voltar, mas pode ver-nos.
'Mas eu tenho muitas saudades do avô Zé' - Ele também tem tuas e está sempre a ver-te, por isso, sempre que pensares nele ele vai ficar contente.

Ao longo dos anos, muitas têm sido as vezes em que o M pergunta pelo avô e diz ter saudades.

Vê-lo de lágrimas nos olhos custa, dói, lembra-nos da saudade que temos mas, nunca deixaremos de falar do avô Zé, pois, só assim, acreditamos que a sua memória permanecerá.

Todos os momentos bons que passaram juntos, o bisavô das brincadeiras e o menino dos seus olhos, não serão esquecidos.