A dor de parto tem uma função: dizer à mulher o caminho que o corpo deve seguir para ajudar o bebé a nascer. Não se pode ter medo dela.Margarida tinha pavor do parto. Chegou mesmo a ponderar nunca ter filhos, só para não ter de sentir as dores horríveis de que tinha ouvido falar. «Mas aconteceu!» As primeiras «moinhas idênticas às dores da menstruação» não a incomodaram muito, mas quando se intensificaram e passaram a ser de cinco em cinco minutos, Margarida decidiu ir a correr para o hospital. «Só desejava chegar lá a tempo de levar a epidural.» As dores «eram verdadeiramente intensas, mas nada que classificasse de insuportável».
Depois de receber a analgesia «foi num ápice, em três puxões a médica tirou o bebé com a ajuda de fórceps». No final, apesar de ter tido um parto «fantástico», Margarida confessa que ficou a sensação de faltar qualquer coisa: «Ficou-me a dúvida se de facto a epidural teria sido necessária. Afinal, fiz a dilatação toda sem qualquer anestesia. O facto de não sentir a força que fiz para a expulsão do bebé, de ter que aguardar a indicação da médica para saber quando devia fazer força, fez-me sentir que me podia ter empenhado mais no nascimento do meu filho.»
Vanda sempre achou que ia sair à mãe na facilidade em ter filhos. «Ela teve boas experiências de parto e não havia epidural na altura», conta. E assim foi. Vanda teve duas filhas sem anestesias e sem traumas. «Com a primeira, senti dores fortes, mas não foi difícil, porque foi muito rápido. Foi um parto excelente.» Com a segunda, o médico fez um toque que espoletou o início do trabalho de parto. Talvez por isso, «custou mais um pouco». E também porque foi mais demorado. «Passei o dia com aquela impressão de querer ir à casa de banho e não poder. Foi mais difícil. Ainda pedi a epidural, mas nunca chegou.» Apesar disso, o balanço é positivo: «Ainda bem que não tive epidural. Não corri riscos. E já me esqueci das dores».
Ana teve as duas experiências. No primeiro filho – parto induzido, a noite inteira deitada na mesma posição por causa do CTG, sem dilatação, mas com contracções intensas e dolorosas – suspirou pela epidural e só acalmou quando a recebeu. «Senti desespero, chorei, só queria que pusessem um fim ao meu sofrimento e ao do meu filho, que era também o meu. Por toda a forma como é acompanhado o parto nos hospitais portugueses, ainda bem que inventaram a epidural», afirma. Quatro anos depois, noutra maternidade, orgulha-se de ter feito nascer a filha sem epidural. «Com uma dor imensa sim, mas que nunca me levou ao desespero. Pelo contrário, deixava-me respirar nos intervalos e dava-me a certeza, racional, mas sobretudo instintiva, emocional, de que no meu corpo se estava a produzir um milagre.»
SEM MEDO DA DOR
A dor de parto, como todas as outras, é muito subjectiva, mas tem características que a distinguem de outras dores: não é patológica, ou seja, não significa que algo de errado se está a passar no corpo, tem intervalos que permitem recuperar as forças e esquece-se facilmente. A sua intensidade depende da preparação física e mental que se fez para o parto e das condições que o hospital oferece à mulher.
«A dor de parto tem uma forte componente psicológica. Costumo até dizer que 75 por cento da dor de parto está na cabeça», diz Rosália Marques, enfermeira especialista em enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica na maternidade do Hospital Garcia de Orta, em Almada. «Depende do que nos foi incutido durante a gravidez, da nossa cultura, das nossas vivências», explica, para depois dar um exemplo: «Já assisti a partos de adolescentes sem qualquer analgésico, em que elas pouco se queixaram das dores. Dizem-me, muitas vezes, que são iguais às da menstruação. Não têm ainda a cultura do bíblico “parirás com dor” enraizada».
Para combater a cultura do medo do parto, é preciso perceber qual a função da dor no nascimento. «A dor dá indicações à mulher para mexer-se de forma a encontrar posições menos dolorosas. Assim, a bacia da mãe adapta-se melhor ao bebé, dando-lhe espaço para encaixar, e isso facilita o trabalho de parto», explica a enfermeira. Por isso, é tão importante que a mulher possa mexer-se à vontade, o que nem sempre acontece nos hospitais portugueses. «As instituições têm de se adaptar à procura de cuidados. Mas ainda estamos no início», reconhece.
No Garcia de Orta dão-se agora os primeiros passos na humanização do parto. Nesta maternidade, as mulheres podem fazer um plano de parto, deambular, ouvir música, mas ainda é a epidural que está no topo dos métodos de alívio da dor. «As mulheres ainda têm muito receio da dor e pedem a epidural precocemente. Apesar de ter cada vez menos riscos, não deixa de ser uma intervenção», frisa a enfermeira-obstetra.
A EPIDURAL
Uma intervenção que todas as mulheres deviam ter direito, afirma Rosário Marques, assistente graduada de Anestesiologia da Maternidade Alfredo da Costa. «É eficaz e segura», justifica. Os riscos são mínimos e passageiros e «estão associados à execução da técnica». O mais comum são as cefaleias - resultado da pós-punção acidental da dura-matér (membrana junto ao espaço epidural) - que passam com analgésicos, repouso hidratação ou espontaneamente, no máximo, em 72 horas.
Ao tirar a dor, a epidural tira também a possibilidade de a mulher participar activamente no nascimento do filho. Alguns estudos indicam que, por este motivo, o trabalho de parto pode prolongar-se e aumenta a probabilidade de recurso a fórceps e ventosa ou parto por cesariana. Conclusões refutadas por Rosário Marques: «Estudos prospectivos mais recentes concluíram que a analgesia epidural não afecta negativamente o progresso de trabalho de parto ou aumenta a taxa de partos por cesariana. A controvérsia persiste, no entanto, sendo que estudos aleatórios têm produzido resultados contrastantes», escreve a anestesiologista no trabalho «Quando iniciar a analgesia de trabalho de parto?», publicado na revista do Clube de Anestesia Regional.
No mesmo artigo, a anestesiologista lembra as recomendações do American College of Obstetrics and Gynecology: «O pedido da grávida é justificação suficiente para a instituição de analgesia durante o trabalho de parto». Rosário Marques subscreve estas recomendações e defende que o único requisito para a aplicação da analgesia deve ser o início do trabalho de parto: «Basta que a mulher tenha contracções, mesmo que não tenha dilatação».
ESCOLHA DEVE SER DA MÃE
Recentemente, Denis Walsh, conceituado parteiro britânico, incendiou a discussão sobre a utilização da epidural: «A dor de parto tem um propósito e é útil, tendo variados benefícios, tais como preparar a mãe para a responsabilidade de cuidar de um recém-nascido». Em declarações ao jornal The Observer, o parteiro condenou aquilo a que chama a «Cultura da Epidural» e evidenciou os benefícios da dor de parto, que diz ser parte de «um ritual de passagem» para a maternidade. «No Ocidente, nunca foi tão seguro ter um filho. Apesar disso, as mulheres têm mais medo do parto do que nunca», criticou.
Num trabalho que deverá ser publicado no jornal do Royal College of Midwives (associação de parteiras), Denis Walsh referiu ainda que 20 por cento das epidurais são aplicadas em mulheres que não precisariam delas, que há evidências de que o parto natural estimula mais as zonas cerebrais que vinculam a mãe ao filho do que o parto com analgesia ou a cesariana e que a dor prepara a mãe para a maternidade. O discurso deu azo a grande controvérsia no Reino Unido.
Muitas mães acusaram-no de não saber do que estava a falar, por ser homem e nunca poder sentir a dor de parto. Alguns profissionais de saúde consideraram o discurso um pouco exagerado. A enfermeira Rosália Marques lembra que ter um parto sem epidural pode aumentar a auto-estima da mulher. E sugere que talvez essa possa ser a explicação por detrás das declarações de Denis Walsh. «Depois de um parto natural, sente-se que uma etapa importante foi ultrapassada com sucesso. Essa sensação de “sou capaz” é bastante positiva e ajuda a mulher a superar pequenos problemas que possam surgir no imediato. Uma mãe com uma boa auto-estima poderá ter uma relação melhor com o filho», explica.
No entanto, a enfermeira defende que cada mulher deve poder escolher o que quer para o seu parto. «Não se pode culpabilizar uma mãe por não querer ter dor. A dor é subjectiva e prende-se com vários aspectos culturais.»
ALIVIAR A DOR SEM EPIDURAL
Liberdade de movimentos: ter liberdade de movimentos é a melhor forma de lidar com a dor. Andar, rodar as ancas, pôr-se de gatas, dançar suavemente com os braços pendurados ao pescoço de alguém, são alguns dos movimentos recomendados. Mas cada mulher encontrará as melhores posições para lidar com a sua própria dor. Desta forma, seguindo as indicações da dor, permite-se que o bebé tenha o máximo espaço possível para se mexer e sair. Pode também usar uma bola de partos durante a dilatação. Sentar-se direita sobre a bola, com as pernas abertas, estimula a pelve a alargar e a abrir. Quando as mulheres podem escolher a posição em que querem dar à luz, a maior parte fá-lo de cócoras, em pé ou sentada. As posições verticais, por contarem com a ajuda da gravidade, facilitam o trabalho de parto e a expulsão do bebé. Vários estudos têm demonstrado que se a mulher estiver em posição vertical na primeira fase do trabalho de parto tem menos dor, menos necessidade de analgesia epidural e a fase de dilatação será mais curta.
Apoio contínuo: ter ao lado o marido, a mãe ou uma amiga ajuda a lidar com a dor. O acompanhante pode fazer uma massagem nas zonas mais doridas, pode dançar (como é sugerido acima), fazer festas no cabelo ou no rosto, dar a mão, deixar a mulher apoiar-se em si. Ou seja, disponibilizar o seu corpo também. O contacto físico é um poderoso analgésico em qualquer situação, por isso, também no parto. Além disso, ter alguém importante ao lado favorece o estado emocional, dá segurança. Alguém que conheça bem a mulher e perceba as suas necessidades, lhe diga o que precisa ouvir (e saiba estar calado quando for necessário), ajudará, com certeza, ao alívio da dor. Uma revisão de estudos do Cochrane Institute (EUA) concluiu que as mulheres que contaram com apoio contínuo durante os seus partos tiveram menos necessidade de analgésicos e ficaram mais satisfeitas com a experiência.
Água: a utilização de água quente durante a dilatação induz a mulher ao relaxamento, reduz a ansiedade estimulando a produção de endorfinas, encurta o trabalho de parto e aumenta a sensação de controlo da dor e a satisfação. A mulher pode ter à sua disposição uma banheira cheia de água (a temperatura não deve ultrapassar os 37 graus) e ir saindo e entrando conforme lhe for mais agradável. Esta hipótese é, no entanto, ainda muito rara nos hospitais portugueses. Algumas maternidades permitem um duche de água quente – que também pode ser bastante agradável – mas apenas numa fase muito inicial do trabalho de parto.
Ambiente: diminuir a intensidade das luzes, manter a porta fechada, desligar os telemóveis, ter no quarto o mínimo de pessoas possível, evitar conversas paralelas entre os profissionais de saúde. Quanto menos estímulos existirem no quarto, mais facilmente a mulher consegue relaxar e concentrar-se no trabalho de parto, o que contribui para o alívio da dor. Ouvir uma música suave ou escolhida pela mulher também pode ajudar a criar um ambiente calmo e relaxante.
Fontes: Iniciativa Parto Normal, um documento de consenso, da Associação Portuguesa de Enfermeiros Obstetras; Método para um parto suave, de Gowri Motha.
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